segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Amor. E?


Eu poderia fabular aqui toda uma escrita, onde eu diria sem as palavras exatas o que senti ao me abrir, depois de tanto tempo, ao possível. Mas não vou. Só posso deixar meus dedos correrem nesta superfície cheia de signos, tentando formar as palavras mais próximas daquilo que me pulsa agora.
O que me flui, escorre por toda a pele. O que me flui também é o que me fere.
Punctum repentino, a imagem do possível amante me atingiu rápida, imediata. De início nada senti de mais, a não ser a curiosidade que sobrevém esses momentos. As sílabas em suspensão no céu da boca: "e...?"
E. Conjunção aditiva, aqui atuando, junto à uma interrogação eterna, o que vai se dar na continuação incontrolável dessa vida. "O que?"
Eu o encontrei na noite, num cruzamento escuro, somente visitado pela Hecatae ou os de sua corte. Entre eu e ele, um extenso abismo. Cerceado por um enorme muro. Eu era uma pedra de basalto onde só ecoava uma coisa: "vá embora, corra pois ainda há tempo para se salvar das agruras do Amor!!" Eu não sei por que fiquei. Mas fiquei.
Do outro lado do abismo, bem longe atrás do muro, escutei ao longe sua voz. E não entendi como, a cada palavra que trocávamos, ele se aproximava mais. E mais um pouco. E mais.
E entendi menos ainda quando o vi ao meu lado, de pé, tomando delicadamente minha mão na sua. E todo o gelo que a violência de minha negação produzia para afastar e congelar o pretendente se derreteu. Um sol se abriu claro, a noite se iluminou devagar, num amanhecer delicado. Só ouvia então o seu silêncio e o piar de alguns pássaros matutinos. E aquele silêncio era tão cálido quanto o sol que se abriu no meu peito, sem que eu percebesse, e que aquecia as juntas da maquinaria amorosa, outrora endurecida e congelada.
E ele me levou consigo. Não o teria como descrever idilicamente. Não atenderia os requisitos da figura onírica a que me acostumei com o tempo. Ao contrário: era insuportavelmente mais próximo da terra, do chão, do que eu do ar ou da água, mais fluídos e menos fáceis de se apreender.
Fisicamente. Apenas fisicamente ele se permitiu apreender. E eu que pensei ser o senhor do jogo, logo passei a ser peão na manobra de seus fluxos.
Fisicamente. Apenas fisicamente me permito o descrever. Alto como montanhas, escuro como uma noite quente de verão. Sorriso claro como algodão. Olhos escuros como a essência do indizível. Mãos grandes, porém de toque delicado. Uma voz que soava além dos ouvidos; talvez num lugar que eu tenha esquecido de fechar melhor. Pernas longas, para alcançar a caminhada de um mundo inteiro. De sua boca, saíam nuvens e palavras, intercaladas por um ronronar gostoso e convidativo. Sua sombra era brilho, seu escuro era discernível como a luz fria de um luar. Se olhar de fora do lugar onde agora estou, será apenas mais um. Nada de mais. Mas eu o faço assim, tomando por material de sua construção o que os olhos do coração apreenderam.
Com seu simples estar, abrandou todo o terreno cheio de irregularidades. Alisou a minha mente devagar, estendeu sobre meu peito ferido um pano de linho virgem. Eu por fora sorria, por dentro pranteava. Falhei em me defender, e deixei a ferida aparente para seu cuidado. Deixei-me. Tolo.
E só tempos depois é que fui beijá-lo. Somente quando eu me abri é que ele se permitiu a proximidade. E foi simples, delicado. Não vi fogos, não tremeram minhas pernas, não arrebatou-se meu coração. Foi leve como o vôo de um pássaro de uma árvore para outra. Soçobrou meus lábios e passeou sua língua no gosto do meu céu. Era doce, obviamente. Pois sem que eu percebesse, ele já havia podado toda a erva amarga que outrora restava entre minha língua e os dentes.
Ele não me deixou esquivar. Envolveu minha cintura com seus braços, e me puxou os lábios para mais perto de si, apertando-me contra sua face como se assim pudesse desfazer um limite invisível que ainda nos pudesse separar. Eu não tive muita escolha, tive?
Ainda estou envolto por aquele abraço. Agora tudo flui dentro de mim. E nem sei onde deságua. Mas é em algum mar muito amplo, onde sei que ainda não naveguei.
E?

1 comentários:

Edith Janete disse...

Geeeeeeeeeente!!!!! Percebo um pulsar detrás de um muro de concreto imaginário... que de concreto só tem as incertezas de uma vida que flui através dele.
beijo meu lindo!