
Mylord:
Navego.
A água se me apresenta disforme, informe, indefinível. Imprevisível. Penso que poderei aportar em alguma ilha. Mas relembro de golpe que estou em um mar de porcelana e gosto de vulcão. Não há rota possível. Não terei como manter uma linha reta, uma vez que a volição desejante produz uma dobra barroca que não se desvela tão facilmente. O coração se abre, uma língua em fogo se desdobra - depliè. Se tento elaborar uma bússola, somente se esta for abstrata. Se desenha em uma pele que está salpicada de ilhas. Meu corpo se faz continente. Meus anseios se fazem contingência. Somente dois traçam uma rota no corpo um do outro.
Engraçado como a água é libidinosa; penetra frestas, encontra buracos e entradas. Quando sensibilizada, a terra insular apreende cada gesto, cada gota de um suor imaginário pelo amor que ondas fazem. Movimentos de ir e vir, ondulações da água como uma coluna vertebral ondulando-se sobre o corpo em sexo, desejo e frêmito. A espuma das águas flutuantes evocam um gozo marítimo em terras onde impera uma doçura em águas paradas. O vento leva gemidos, a areia carrega cristais de prazer. O vento canta. "Never is a promisse". Toujour avec moi. Toujour encore. En corps. Em corpo.
Ao contrário do que se pensa, a palavra nem sempre comunica nada. Enquanto esse objeto sem forma definida, somente toma consistência num beijo que não acontece mas se evidencia nas dobras finas de um tecido que decresce distâncias. Ergue sensaçãos tão súbitas e imensas quanto ondas. Mas que também tem a duração das mesmas.
Quer saber a real função da arte?
A arte conserva.
Há um amor que se deseja conservar. Mas ondas partem do todo somente para fenecer...Não é a beleza da flor em si, diria Roland Barthes, mas o exato e decisivo momento em que esta irá fenecer e o doce momento em que a pétala irá cair. Mas essa breviedade se eterniza na sensação. A palavra nem sempre dá conta desse monumento que se ergue, da volição.
E querubins barrocos ainda carregam guirlandas a bater asas delicadas para que ainda se conserve o ritmo da respiração que ouvirias se em meu continente pudesses ser o mar...
Embraces...
C.
(Imagem de autoria de Cassiano Stahl. Todos os direitos reservados. Permitida reprodução, desde que citado o autor).

2 comentários:
tuas palavras, não, teus pensamentos dançam e as palavras tentam ser notações. A imagem apresenta o movimento. E eu adorando assistir, sorrindo.
Você é um grande artista! É raro hoje em dia encontrar algo e alguém assim,te leio e releio infinitas vezes e nunca sei quando parar.
você é uma pessoa especial Sr. Stahl, alguém que vale a pena conhecer e ler.
Um grande beijo de um grande admirador.
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