
O amor, (parafraseando Lygia Fagundes Teles), possui sua disciplina. Saint-Exupèry diria dos "ritos". Há ritos para o amor, este enquanto uma acese para o prazer. Eis sua liturgia:
- Prepara os lençóis, que devem estar limpos e perfumados;
- Constrói teu ninho entre a cama e teu corpo;
- Lava tua carne, refresca tua pele, orna teus cabelos. Nada é mais doce do que o brilho ao olhar do amante;
- Deixa frutas, doces e o que de mais aprazível ao paladar se puder oferecer; todo o gozo e toda a dor começaram com uma simples mordida em uma maçã;
- Limpa tua boca, dentes e lábios; o beijo da morte as vezes pode ter melhor hálito;
- Recebe teu amante como quem recebe ao Zéfiro gozador a fazer dançar as cortinas da janela;
- Entrega-te ao beijo do teu desejante; singra e navega nas estrelas do céu de sua boca;
- Que teus lábios passeiem sobre cada planície, vale ou desfiladeiro das terras de teu amor, não esquecendo de envolver os mais altos picos com o calor de teu hálito;
- Ama com cada poro, célula e átomo de tua carne; um dia ela não mais estará aqui. O que levarás do outro na derradeira viagem?
- Goza da pequena e gloriosa morte; até o último minuto, o suspiro do anseio satisfeito há de ecoar por todos os vales numa nau de seda e algodão;
Ao fim, nada há de mais doce do que jogar-se aos braços do amante após o prazer. Deixar-se tombar em seu peito como a pétala da rosa que fenece. Um dia, de volta da terra ela brotará, tão rubra e viva como será eterno o desejo do gozo. Tudo volta. Mesmo aquilo que se pensou não ter vivido.
Espraio-me agora nos braços de meu núbio. Ouço seu coração bater em ritmo certo, sua cabeça levemente tombada para o lado, como o galho da cerejeira tomba ao peso de suas flores; em lençóis de algodão ele se cobre, e escuto atento o ronronar de sua respiração compassada. Gozo novamente com a música de seus olhos fechados. Se atento me colocar, posso sentir um calor vigoroso emanar de sua pele, me aquecendo o espírito com uma fulgurância terna.
O amor nos destrói, mas sempre faz nascer as mais belas poesias.
Deste jardim florido onde me ponho em sonhos...
C.
(Para meu amante, João, que me propicia os mais plenos dias e as mais doces noites. Para Márcio, escrileitor , amigo e sensualista. E para a querida Idalina, erógena flor em terreno selvagem numa vida desperta).

1 comentários:
Palmas, escute aqui eu aplaudindo!
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