quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pequenos insones

Sempre tive medo de armas brancas. Facas afiadas furam e cortam ao mesmo tempo. A lembrança de pequenas feridas anteriores faz desejar não saber como é uma deste tipo. E faz pensar que a "verdadade" é um instrumento de furo e corte. Nem sempre eficaz.

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Lá fora já ouço os pássaros cantarem, anunciando a manhã. Não ouso olhar a hora no relógio; só sei que minha cara vai estar uma droga amanhã. Desconcertado, como um relógio antigo desmontado sobre a mesa, onde cada peça está disposta a distância milimétrica uma da outra, por ordem de tamanho. Meu analista é um relojoeiro. Eu, peças dispostas em um divã.

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Não sei o que vem depois. Acho que nada. Mas a palavra quando arte, também conserva. Será que eu poderia viver eternamente como uma palavra? A palavra não morre, não importa a língua. Palavras muito restritas fenecem, mas ainda persistem em escritos conservados. E mesmo que sumam, suas raízes ainda persistem nas palavras novas que advém delas, suas filhas e netas.
Deve ser estranho - seria estranho, penso - quando me "falassem" e eu imagino que poderia sentir o ar sair das dos pulmões e reverberar nas cordas vocais, o cheiro e a vibração do palato mole ao soar minhas letras. O odor da comida e das secreções do corpo perfumariam minha forma etérea. O perfume do hálito melado de carne, fluídos e ar. Há gosto de metal na minha boca. Cobre, descubro. Cheiro de uma pequena morte a caminho, como tempestade a chegar. Chumbo. E acordaria, espreguiçando-me numa consciência criada sobre palavras de amor, ou subitamente, como de um pesadelo nas vozes do ódio. A vida das palavras também não deve ser fácil...

1 comentários:

Nivaldo Vasconcelos disse...

Aqui,passeando através de minha cabeça e escorrendo pela minha voz, suas palavras o tornam eterno, admiro sua escrita, sua arte e sua pessoa.

Um beijão relógio desconcertado.