
Cansaço.
A correria do cotidiano, aliado ao calor desmesurado e abafado da cidade, me deixam o corpo mole. Meu corpo todo malemolente pede uma cama, grita por travesseiros, frio e cobertores pesados. Ao invés disso, os céus se resolvem emburrar e fechar em nuvens cinzas, de beiço com os pobres mortais caminhando sobre a laje quente. Como numa estufa de flores murchas, meu corpo sua intensamente, destilando água, proteína e fel que amaldiçoa esses dias de bafo úmido. Faz acreditar que o inferno não está abaixo, mas aqui mesmo, na superfície - isso, claro, se eu acreditasse em inferno. (Pensando bem, posso passar a acreditar, se sobreviver a este verão com algum conforto...)
Minha cabeça fica pesada, as pernas finas e brancas como leite amolecem. Creme-de-homem-de leite... Minha acompanhante constante, a neurose obsessiva, resolve aparecer para dar um alô e repetir incessantes vezes na cabeça tal um disco arranhando: "isso deve ser alguma doença mais grave..." Penso em ir ao médico (de novo). Penso em muitas coisas, no passado, no futuro. Mas o único lugar onde estou, óbviamente, é no aqui e no agora. Quente demais, sempre resolvo voltar aos dias de inverno rigoroso de minha terra, onde acordávamos de manhã cedo, eu e meu irmão, estupefatos porque o matagal ao lado de casa estava branco como um manto de algodão. Imaculado gelo. Antes de ir para a aula, passávamos no matinho, a brincar naquela superfície lunar. Amávamos outros mundos, nunca apenas os nossos. Oh, tolo ressentimento pelo que se foi. As vezes, neuróticos como eu se agarram a seus sinthomas como se estes fossem tesouros preciosos. Deixar ir é sempre a parte mais difícil, em tudo.
A última grande nevasca que tivemos por lá foi em 1994, dois anos depois do falecimento de minha amada avó. Começou no final da tarde, quando eu e minha mãe havíamos ido buscar o velho fusca branco na oficina. Aproveitamos para levar um pequeno cãozinho da mascote do lugar, que havia dado a luz alguns meses antes. Enrolamos ele em um manto de pelúcia macia, enfiei-o dentro do casaco e entramos no carro. Umas coisas estranhas, branquinhas e pequenas começaram a cair do céu - eram cinco horas da tarde, exatamente.
As nuvens estavam escuras, o frio era seco e chegava a doer nas faces. Nada aquecia. E aquilo não parou mais de cair, como se fosse algodão do céu. As nuvens haviam sido passadas em algum triturador, e aqueles pedacinhos eram suas lindas lascas de sutileza.
Aquele evento não parou até a manhã seguinte. Seguindo pela noite, os flocos de neve caíam como pequenas estrelas do céu, e com a paciência que é pertinente da natureza, foram lentamente se acumulando. Deixei a as persianas abertas durante a noite, apenas para, entre um acordar e dormir, ver se eles ainda estavam lá, se aquela neve toda era real. E eu lembro de olhar pelos vidros, meio entorpecido, e antes de voltar a dormir, sorria: era feliz.
Ao acordar pela manhã, que surpresa! Abri a janela, enrolado no cobertor, e tudo era imaculadamente branco! Um mundo de silêncio; nenhum pássaro cantava, nenhuma palavra se ouvia, nenhum carro passando, nada. Somente aquela colcha branca e fofa de neve que cobria cada rua, cada fresta, cada pequeno telhado das casas. Mesmo o céu era completamente alvo, confundido e apagando a existência de qualquer linha que pudesse definir o horizonte. Foram mais de cinco centímetros de neve, beleza e silêncio...
E depois volto no tempo e lembro da primavera, em um único dia onde me senti confortável e feliz ao calor: junto da pedra e a cerquinha do nada, no meio de um matagal verde-intenso, salpicado - sarapintado, como diria Roland Barthes - de pontos amarelos: minhas amadas flores de dente-de-leão, onde, mais tarde, as veria descritas com maestria e doçura no livro de Ray Bradbury, "O Vinho da Alegria". Mesmo o que não volta, se reatualiza em um momento que ilumina o coração, como a luz dourada do sol engarrafado, como belamente ele descreveu
Hoje, em meio a chuva, neuroses e medos, me senti um tanto solar. Engoli luz, e agora tudo em mim é brilho.
C.
(A foto é de família. Mostra a mim com cerca de 5 anos).

2 comentários:
Que foto linda...
Adorei o texto...
Nunca vi neve... deve ser realmente lindo...
Bjos.
Obrigado, Clarissa!
Sim,neve é uma coisa linda mesmo! Pena que faz muito tempo que não neva mais lá em Gramado...
bjs, apareça!
C.
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