segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Minha nossa!
Então era essa a sensação estranha que eu tinha no peito...
(nem me lembrava mais que tinha um coração que batia...)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Defesa do lindo trabalho do colega de mestrado


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Amor. E?


Eu poderia fabular aqui toda uma escrita, onde eu diria sem as palavras exatas o que senti ao me abrir, depois de tanto tempo, ao possível. Mas não vou. Só posso deixar meus dedos correrem nesta superfície cheia de signos, tentando formar as palavras mais próximas daquilo que me pulsa agora.
O que me flui, escorre por toda a pele. O que me flui também é o que me fere.
Punctum repentino, a imagem do possível amante me atingiu rápida, imediata. De início nada senti de mais, a não ser a curiosidade que sobrevém esses momentos. As sílabas em suspensão no céu da boca: "e...?"
E. Conjunção aditiva, aqui atuando, junto à uma interrogação eterna, o que vai se dar na continuação incontrolável dessa vida. "O que?"
Eu o encontrei na noite, num cruzamento escuro, somente visitado pela Hecatae ou os de sua corte. Entre eu e ele, um extenso abismo. Cerceado por um enorme muro. Eu era uma pedra de basalto onde só ecoava uma coisa: "vá embora, corra pois ainda há tempo para se salvar das agruras do Amor!!" Eu não sei por que fiquei. Mas fiquei.
Do outro lado do abismo, bem longe atrás do muro, escutei ao longe sua voz. E não entendi como, a cada palavra que trocávamos, ele se aproximava mais. E mais um pouco. E mais.
E entendi menos ainda quando o vi ao meu lado, de pé, tomando delicadamente minha mão na sua. E todo o gelo que a violência de minha negação produzia para afastar e congelar o pretendente se derreteu. Um sol se abriu claro, a noite se iluminou devagar, num amanhecer delicado. Só ouvia então o seu silêncio e o piar de alguns pássaros matutinos. E aquele silêncio era tão cálido quanto o sol que se abriu no meu peito, sem que eu percebesse, e que aquecia as juntas da maquinaria amorosa, outrora endurecida e congelada.
E ele me levou consigo. Não o teria como descrever idilicamente. Não atenderia os requisitos da figura onírica a que me acostumei com o tempo. Ao contrário: era insuportavelmente mais próximo da terra, do chão, do que eu do ar ou da água, mais fluídos e menos fáceis de se apreender.
Fisicamente. Apenas fisicamente ele se permitiu apreender. E eu que pensei ser o senhor do jogo, logo passei a ser peão na manobra de seus fluxos.
Fisicamente. Apenas fisicamente me permito o descrever. Alto como montanhas, escuro como uma noite quente de verão. Sorriso claro como algodão. Olhos escuros como a essência do indizível. Mãos grandes, porém de toque delicado. Uma voz que soava além dos ouvidos; talvez num lugar que eu tenha esquecido de fechar melhor. Pernas longas, para alcançar a caminhada de um mundo inteiro. De sua boca, saíam nuvens e palavras, intercaladas por um ronronar gostoso e convidativo. Sua sombra era brilho, seu escuro era discernível como a luz fria de um luar. Se olhar de fora do lugar onde agora estou, será apenas mais um. Nada de mais. Mas eu o faço assim, tomando por material de sua construção o que os olhos do coração apreenderam.
Com seu simples estar, abrandou todo o terreno cheio de irregularidades. Alisou a minha mente devagar, estendeu sobre meu peito ferido um pano de linho virgem. Eu por fora sorria, por dentro pranteava. Falhei em me defender, e deixei a ferida aparente para seu cuidado. Deixei-me. Tolo.
E só tempos depois é que fui beijá-lo. Somente quando eu me abri é que ele se permitiu a proximidade. E foi simples, delicado. Não vi fogos, não tremeram minhas pernas, não arrebatou-se meu coração. Foi leve como o vôo de um pássaro de uma árvore para outra. Soçobrou meus lábios e passeou sua língua no gosto do meu céu. Era doce, obviamente. Pois sem que eu percebesse, ele já havia podado toda a erva amarga que outrora restava entre minha língua e os dentes.
Ele não me deixou esquivar. Envolveu minha cintura com seus braços, e me puxou os lábios para mais perto de si, apertando-me contra sua face como se assim pudesse desfazer um limite invisível que ainda nos pudesse separar. Eu não tive muita escolha, tive?
Ainda estou envolto por aquele abraço. Agora tudo flui dentro de mim. E nem sei onde deságua. Mas é em algum mar muito amplo, onde sei que ainda não naveguei.
E?
Mesmo escondendo o corpo, o desejo encontra modos de se mostrar e atrair aquilo que persegue. Fera arredia, porém esperta para atrair com um olhar a vítima de seus fulgores.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ahhh...mas

Seu Corpo pedia: "amas...". Ele só respondia: "Ah, mas não sei como...Não aprendi, não entendo como funciona. Não sei como é...". O Corpo pediu de novo: "amas!". E ele respondeu: "Ah, mas como vou fazer isso? Não é só o medo que me impede... eu não sei o que fazer diante do olhar daquele que me atrai! Não sei o que dizer quando diante da sua boca. Não sei o que pensar quando de encontro ao seu olhar. E então, é inevitável o enfrentamento de um luto, e outro, e mais uma vez, e mais um..."
O Corpo pediu de novo: "Mas amas...!"
Um muro cresceu entre ambos, e a última coisa que o Corpo pôde ouvir foi: "Ah mas não sei como".

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cativo e sem passagem



O pensamento acompanha o ritmo dos olhos, tentando se acostumar à passagem rápida das imagens dentro do veículo. Poderia ser um barco - mas trepida demais, e faz o corpo retesar para manter a coluna ereta e o parco equilíbrio, mesmo sentado.
A velocidade faz com que aqueles caixotões enormes, um bando de gente empilhada umas nas outras - essas coisas que chamam de prédios - passem pelas janelas do ônibus como imagens numa tela de televisão. Se olhar pra fora é ruim, pior pra dentro. Cabelos desgrenhados, olhares cansados e rostos retorcidos por medo e preocupações nem tão difíceis de se imaginar.
E então uma cor diferente passa - não, não passa: rasga! - todo o cinza e olhos cansados e cabelos desgrenhados e... e.
O ônibus pára, ele entra. O vento lhe desarruma os cabelos da fronte, finos como os de um recém-nascido. Tem a pele lisa - não deve ter mais de 25, penso. Usa óculos de aros grossos; pesam um pouco naquele rosto de querubim com enxaqueca, mas não lhe roubam a beleza.
É ligeiramente alto - talvez 1,70m. Esguio, tem uma certa agilidade contida. O corpo acompanha o conjunto: costas largas, pernas longas: ah, as harmoniosas colunas do templo. Uma leve barriguinha de quem, como eu, não é muito afeito a exercícios, mas também não pára quieto. Nádegas - ahh, as nádegas - arredondadas, empinadas, torneadas. Ali minha imaginação dispara em devaneios que me amolecem os ossos e entesam a carne. Ai... já o vejo nú - claro, pelos ruivos distribuídos entre a púbis , o esfíncter e o ânus. A pele da bunda lisa, marmórea - nunca viu o sol.
Não me importo com os outros olhos; é o MEU olhar que o capturou. Posso não tê-lo em carne - mas o aprisiono em minhas retinas e, mais tarde, lhe darei um invólucro de açúcar e veludo. Aí ele vai ser só meu! Ninguém mais vai carregá-lo como eu. Rosno por dentro: "ele é MEU!!"
Ele percebe desconfiado todas aquelas pestanas imbecis olhando para ele. Mas é atras de mim que ele senta. Na passagem, o rastro do seu perfume misturado ao cheiro das axilas - e eu disparo outra vez, tentando reproduzir entre o cérebro e minhas narinas o cheiro que deve haver entre suas bolas e a virilha.
Fecho os olhos para manter ambos presos lá - ele e seu cheiro. Ele surge nu em minha imagem-prisão. Seu pau está duro, rijo. Longo, levemente curvado num arco suave. A pele é fina, e recua para revelar a cabeça úmida e róseo-avermelhada; lateja. Me aproximo e posso ver a pequena fenda por onde cai, discreto, o líquido cristalino que antecede seu prazer. Está quente, tem gosto e cheiros que me dão fome. Fome de estar entre suas pernas.
Mas deixo pra depois. Me levanto do meu assento, vou para o banco de trás. Quero ver a sua nuca. Lembro que os japoneses viam um imenso erotismo nessa região, onde as gueixas deixavam à mostra apenas um pedaço que não passava do limite entre as omoplatas, que clareavam com uma pasta de pó de arroz e óleo de papoula. Mas ele...ah, ele não precisaria. Já era branco, pálido - fantasmático. E eu já nem sabia se ele realmente estava ali ou se fora eu que o havia feito saltar de alguma história ou conto de alcova.
Ele atende ao telefone. Mais um elemento dele que vou subjugar e tornar cativo ao meu desejo! E agora, eu o tenho todo! Carne, vísceras, fluídos, corpo. Em mim, ele está mais carne do que se pudesse o tocar de fato!
O sinal da parada soa. Ele desce.
Não faz mal, eu penso. Dali, já tirei o que precisava. Mas se ele soubesse o que vou fazer com ele depois...

(Imagem de autoria do fantástico fotógrafo Robert Mapplethorpe, extraída de http://latimesblogs.latimes.com/culturemonster/images/2009/02/18/michael_roth1983_2.jpg)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Caminho, ando, corro, paro, ofego, sigo adiante. Paro, ando, respiro, como, sento, penso: é isso que realmente quero pra mim?

domingo, 2 de agosto de 2009

Cair em si.


Certa vez, um Peregrino. Não havia nome a lhe dar; era apenas um caminhante, como todos no mundo. Mantendo seus pés em movimento, corria mundos e universos buscando aprender. Aprender a estar numa vida que lhe era imensa, poderosa e assustadora. Mas mesmo assim, mesmo com medo, ele caminhava.

Um dia, depois de cruzar extensar florestas, desertos áridos e oceanos azuis, chegou a um reino todo escavado na rocha, dos pés de uma montanha até o topo. Foi subindo os degraus que circundavam toda a extensão do monte. Viu templos à beira de precipícios, mosteiros isolados no topo de montes vizinhos, vilas inteiras construídas com pedra e madeira, umas sobre as outras. No cume, um imenso pátio de pedra rosa, onde na extremidade norte se via um castelo muito amplo. As paredes eram cobertas com argamassa feita de cimento pigmentado com as areias de todos os pontos da montanha, o que dava cores as mais diversas à estrutura. Bandeirolas estavam penduradas em fios de prata, que pendiam da torre central até o chão. em cada uma, pedidos e orações em todas as línguas conhecidas, desconhecidas e outras já mortas. Ao fundo, três quedas d'água sumiam debaixo da estrutura do castelo, e provavelmente desaguavam em um único rio aos pés do monte, logo ao lado do primeiro degrau.

O ar era rarefeito, era difícil respirar, e ventava muito. Era frio e, a medida que se subia, mais gelado ficava. No topo, havia um sol eterno, pois ali já se via tudo acima das nuvens. Talvez fosse o ponto mais alto daquela região. O vapor das quedas turvava a visão, num colorido aveludado. Ele seguiu até o portão principal. Havia apenas o flautear de uma escultura onde o vento criava sons do oco da boca de uma estátua de algum ídolo desconhecido. Seu corpo era de madeira, mas a flauta era de ouro e jade. O chão era de opalina, uma pedra translúcida e que refletia todas as cores em tons leitosos.

Onde estavam as pessoas? Onde estavam os monges ou religiosos do lugar? Para que mesmo ele havia ido até lá?

Passando mais uma porta, chegou ao átrio principal. Um jardim interno, repleto de flores da época, cobria colunatas do claustro que circundava o pátio. Ao centro, um barco belamente entalhado e, dentro dele, um corpo coberto de um pano branco.

Uma dor no seu coração emergiu. Pensou em como era estranho ver um corpo. Era estranho pensar que um dia amou, respirou, caminhou, colheu aquelas flores, sentiu seus cheiros, amou, gozou e chorou. E mais triste era pensar: ele foi. E entendeu o porque do barco.

Ele lembrou. Sabia porque estava ali.

Largou a bolsa de pertences, tirou o manto que o protegia do frio e, sozinho, empurrou a pequena balsa até a beirada do outro lado do templo, onde se via o paredão de pedra e as quedas d'água, bem de perto. Empurrou o barco, e ficou ali, estático, enquanto ele caia, engolido pela convergência das três quedas d'água.

De seu rosto, rolaram apenas três lágrimas, que lhe lembraram que chorava a perda de seu próprio corpo. E de mais um pedaço de si.

Deixou a capa, as roupas e a bolsa para trás. E novamente desceu a montanha, chegando nu até o chão. Mais vivo do que nunca.


(imagem extraída de www.pedacosdemim.blogspot.com)