
Certa vez, um Peregrino. Não havia nome a lhe dar; era apenas um caminhante, como todos no mundo. Mantendo seus pés em movimento, corria mundos e universos buscando aprender. Aprender a estar numa vida que lhe era imensa, poderosa e assustadora. Mas mesmo assim, mesmo com medo, ele caminhava.
Um dia, depois de cruzar extensar florestas, desertos áridos e oceanos azuis, chegou a um reino todo escavado na rocha, dos pés de uma montanha até o topo. Foi subindo os degraus que circundavam toda a extensão do monte. Viu templos à beira de precipícios, mosteiros isolados no topo de montes vizinhos, vilas inteiras construídas com pedra e madeira, umas sobre as outras. No cume, um imenso pátio de pedra rosa, onde na extremidade norte se via um castelo muito amplo. As paredes eram cobertas com argamassa feita de cimento pigmentado com as areias de todos os pontos da montanha, o que dava cores as mais diversas à estrutura. Bandeirolas estavam penduradas em fios de prata, que pendiam da torre central até o chão. em cada uma, pedidos e orações em todas as línguas conhecidas, desconhecidas e outras já mortas. Ao fundo, três quedas d'água sumiam debaixo da estrutura do castelo, e provavelmente desaguavam em um único rio aos pés do monte, logo ao lado do primeiro degrau.
O ar era rarefeito, era difícil respirar, e ventava muito. Era frio e, a medida que se subia, mais gelado ficava. No topo, havia um sol eterno, pois ali já se via tudo acima das nuvens. Talvez fosse o ponto mais alto daquela região. O vapor das quedas turvava a visão, num colorido aveludado. Ele seguiu até o portão principal. Havia apenas o flautear de uma escultura onde o vento criava sons do oco da boca de uma estátua de algum ídolo desconhecido. Seu corpo era de madeira, mas a flauta era de ouro e jade. O chão era de opalina, uma pedra translúcida e que refletia todas as cores em tons leitosos.
Onde estavam as pessoas? Onde estavam os monges ou religiosos do lugar? Para que mesmo ele havia ido até lá?
Passando mais uma porta, chegou ao átrio principal. Um jardim interno, repleto de flores da época, cobria colunatas do claustro que circundava o pátio. Ao centro, um barco belamente entalhado e, dentro dele, um corpo coberto de um pano branco.
Uma dor no seu coração emergiu. Pensou em como era estranho ver um corpo. Era estranho pensar que um dia amou, respirou, caminhou, colheu aquelas flores, sentiu seus cheiros, amou, gozou e chorou. E mais triste era pensar: ele foi. E entendeu o porque do barco.
Ele lembrou. Sabia porque estava ali.
Largou a bolsa de pertences, tirou o manto que o protegia do frio e, sozinho, empurrou a pequena balsa até a beirada do outro lado do templo, onde se via o paredão de pedra e as quedas d'água, bem de perto. Empurrou o barco, e ficou ali, estático, enquanto ele caia, engolido pela convergência das três quedas d'água.
De seu rosto, rolaram apenas três lágrimas, que lhe lembraram que chorava a perda de seu próprio corpo. E de mais um pedaço de si.
Deixou a capa, as roupas e a bolsa para trás. E novamente desceu a montanha, chegando nu até o chão. Mais vivo do que nunca.
(imagem extraída de
www.pedacosdemim.blogspot.com)