
Era 1h30min da manhã. Insone. Uma angústia de não sei o que me atravessava - espada cravada nas entranhas. Andando pela minha casa, buscando algo a fazer para aplacar um corpo cansando demais até para descansar.
Amo as manhãs, o nascer de um sol dourado em um céu verde-água. Mas amo-a para me manter adormecido; é como estar aninhado em nuvens e coberto com lençóis de luz. Para viver, prefiro o fim de tarde e a noite. Ser vespertino, tenho a sorte de ainda poder ouvir, desta terra, o barulho de grilos e o farfalhar de folhas ao vento.
Mas a noite escura me chamava, a luz artificial do poste incomodava e eu queria algo mais fundo. Entrei em alguma forma de devir-animal, onde apenas queria me aninhar em uma toca escura, como uma raposa cava sua toca entre as raízes da árvore centenária. Ao fundo da terra, há um mundo mais fresco.
Saí para fora de minha casa, dessa pele a que Hündertwasser tinha tanto estudado. Me despi mais uma vez, dessa vez das roupas. Ao lado de minha casa há um terreno baldio. Era noite, a lua era cheia, eu era ensandecido e sabia que não haveria viva alma nessa terra de pequenices. Desci as escadas onde tantas vezes caí e me ergui na infância, passei pela calçada da frente de casa e entrei no pequeno matagal que há ao lado de minha morada. As folhas estavam muito verdes, cheias, alimentadas por sol, chuva em abundância e temperatura adequada. Estavam plenas em suas existências breves, prontas para uma vida que, mesmo se sabendo curta, seria intensa.
Caminhei num passo lento, cerimonial, como se estivesse entrando em terras desconhecidas, tentando, desnudo, dizer que vinha em paz, que me recebecem, por gentileza. Um vento mais forte soprou, as folhas roçaram de novo, eu tomei aquilo em meu coração como um "entra". E fiquei um tempo ali, parado, meio bobo, meio estúpido, pensando em minha pequena loucura que tanto bem me fazia, que tanto contemplava o que desejava em meu mar de verde esmeralda e flores em botão. E resolvi que me deitaria, ali mesmo, esperando um pouco do abraço do pequeno pedaço de terra entre a casa de madeira e a de concreto.
Ah... a Gaya é mãe generosa que tira mas também dá.
Senti na minha boca gosto de erva cidreira e açúcar. Havia no ar um cheiro muito suave de flores diversas, ao qual eu poderia imaginar de acordo com os acordes de cada odor. Eu via em minha mente pequenas cores brilharem como estrelas, e uma abóboda constelar se formara sobre mim, enquanto a lua cheia, grávida e plena, iluminava minha pele, deixando-a mais pálida do que já é. Pequenas abelhas suplicantes pousaram sobre meus mamilos róseos, e não temi ser atacado ou ferido. Ao contrário, sentia-as baterem asas sobre os mesmos, me causando uma sensação um tanto erótica, quase me levando a um êxtase de outra forma que o sexual. E então sorri, feliz, porque os pequenos vagalumes que habitavam as dobras das palmas saíram de seus esconderijos para brilhar numa noite que se fez festa com abelhas e sapos coaxando, enquanto grilos entoavam cantos de sedução e abelhas me beijavam o peito como flor, extraíndo um mel de gôzo, talvez mais doce que seu mel dourado. Eu era um alimento sagrado, recheado de dourado do sol e polvilhado pela prata da Lua.
O vento passava sobre meu corpo nu, me beijando a pele, me acariciando o sexo e aliviando o cansaço da carne por um dia estafante, quente e incerto. Nesse momento, eu sabia que queria ser recebido pela terra. Parecia que a qualquer momento ela se curvaria para dentro, e devagar me engoliria para dentro de si, enquanto aquele regozijo continuaria lá fora, e meu sono eterno se consumaria entre as raízes e os restos do mundo. Eu seria apenas mais um estrato, mas também matéria de produção para tanto mais.
Foi ali que eu acreditei em imortalidade. Não da alma, nem da consciência, mas da vida e do desejo. Eu fui. Deixei de ser. Estou sendo novamente. Ah, minha loucura companheira, até o próximo uivo do coração descompassado me mergulhar no oceano da tristeza e incompreensão.
Até lá, sigo. Como diria Mário Quintana, "o diabo, é deixar de viver!!".
C.






