sábado, 31 de outubro de 2009

Devir animal e vegetal, (ou, quando, no verde, segui sendo...)


Era 1h30min da manhã. Insone. Uma angústia de não sei o que me atravessava - espada cravada nas entranhas. Andando pela minha casa, buscando algo a fazer para aplacar um corpo cansando demais até para descansar.

Amo as manhãs, o nascer de um sol dourado em um céu verde-água. Mas amo-a para me manter adormecido; é como estar aninhado em nuvens e coberto com lençóis de luz. Para viver, prefiro o fim de tarde e a noite. Ser vespertino, tenho a sorte de ainda poder ouvir, desta terra, o barulho de grilos e o farfalhar de folhas ao vento.

Mas a noite escura me chamava, a luz artificial do poste incomodava e eu queria algo mais fundo. Entrei em alguma forma de devir-animal, onde apenas queria me aninhar em uma toca escura, como uma raposa cava sua toca entre as raízes da árvore centenária. Ao fundo da terra, há um mundo mais fresco.

Saí para fora de minha casa, dessa pele a que Hündertwasser tinha tanto estudado. Me despi mais uma vez, dessa vez das roupas. Ao lado de minha casa há um terreno baldio. Era noite, a lua era cheia, eu era ensandecido e sabia que não haveria viva alma nessa terra de pequenices. Desci as escadas onde tantas vezes caí e me ergui na infância, passei pela calçada da frente de casa e entrei no pequeno matagal que há ao lado de minha morada. As folhas estavam muito verdes, cheias, alimentadas por sol, chuva em abundância e temperatura adequada. Estavam plenas em suas existências breves, prontas para uma vida que, mesmo se sabendo curta, seria intensa.

Caminhei num passo lento, cerimonial, como se estivesse entrando em terras desconhecidas, tentando, desnudo, dizer que vinha em paz, que me recebecem, por gentileza. Um vento mais forte soprou, as folhas roçaram de novo, eu tomei aquilo em meu coração como um "entra". E fiquei um tempo ali, parado, meio bobo, meio estúpido, pensando em minha pequena loucura que tanto bem me fazia, que tanto contemplava o que desejava em meu mar de verde esmeralda e flores em botão. E resolvi que me deitaria, ali mesmo, esperando um pouco do abraço do pequeno pedaço de terra entre a casa de madeira e a de concreto.

Ah... a Gaya é mãe generosa que tira mas também dá.

Senti na minha boca gosto de erva cidreira e açúcar. Havia no ar um cheiro muito suave de flores diversas, ao qual eu poderia imaginar de acordo com os acordes de cada odor. Eu via em minha mente pequenas cores brilharem como estrelas, e uma abóboda constelar se formara sobre mim, enquanto a lua cheia, grávida e plena, iluminava minha pele, deixando-a mais pálida do que já é. Pequenas abelhas suplicantes pousaram sobre meus mamilos róseos, e não temi ser atacado ou ferido. Ao contrário, sentia-as baterem asas sobre os mesmos, me causando uma sensação um tanto erótica, quase me levando a um êxtase de outra forma que o sexual. E então sorri, feliz, porque os pequenos vagalumes que habitavam as dobras das palmas saíram de seus esconderijos para brilhar numa noite que se fez festa com abelhas e sapos coaxando, enquanto grilos entoavam cantos de sedução e abelhas me beijavam o peito como flor, extraíndo um mel de gôzo, talvez mais doce que seu mel dourado. Eu era um alimento sagrado, recheado de dourado do sol e polvilhado pela prata da Lua.

O vento passava sobre meu corpo nu, me beijando a pele, me acariciando o sexo e aliviando o cansaço da carne por um dia estafante, quente e incerto. Nesse momento, eu sabia que queria ser recebido pela terra. Parecia que a qualquer momento ela se curvaria para dentro, e devagar me engoliria para dentro de si, enquanto aquele regozijo continuaria lá fora, e meu sono eterno se consumaria entre as raízes e os restos do mundo. Eu seria apenas mais um estrato, mas também matéria de produção para tanto mais.

Foi ali que eu acreditei em imortalidade. Não da alma, nem da consciência, mas da vida e do desejo. Eu fui. Deixei de ser. Estou sendo novamente. Ah, minha loucura companheira, até o próximo uivo do coração descompassado me mergulhar no oceano da tristeza e incompreensão.

Até lá, sigo. Como diria Mário Quintana, "o diabo, é deixar de viver!!".

C.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Mylord:

Navego.

A água se me apresenta disforme, informe, indefinível. Imprevisível. Penso que poderei aportar em alguma ilha. Mas relembro de golpe que estou em um mar de porcelana e gosto de vulcão. Não há rota possível. Não terei como manter uma linha reta, uma vez que a volição desejante produz uma dobra barroca que não se desvela tão facilmente. O coração se abre, uma língua em fogo se desdobra - depliè. Se tento elaborar uma bússola, somente se esta for abstrata. Se desenha em uma pele que está salpicada de ilhas. Meu corpo se faz continente. Meus anseios se fazem contingência. Somente dois traçam uma rota no corpo um do outro.

Engraçado como a água é libidinosa; penetra frestas, encontra buracos e entradas. Quando sensibilizada, a terra insular apreende cada gesto, cada gota de um suor imaginário pelo amor que ondas fazem. Movimentos de ir e vir, ondulações da água como uma coluna vertebral ondulando-se sobre o corpo em sexo, desejo e frêmito. A espuma das águas flutuantes evocam um gozo marítimo em terras onde impera uma doçura em águas paradas. O vento leva gemidos, a areia carrega cristais de prazer. O vento canta. "Never is a promisse". Toujour avec moi. Toujour encore. En corps. Em corpo.

Ao contrário do que se pensa, a palavra nem sempre comunica nada. Enquanto esse objeto sem forma definida, somente toma consistência num beijo que não acontece mas se evidencia nas dobras finas de um tecido que decresce distâncias. Ergue sensaçãos tão súbitas e imensas quanto ondas. Mas que também tem a duração das mesmas.

Quer saber a real função da arte?

A arte conserva.

Há um amor que se deseja conservar. Mas ondas partem do todo somente para fenecer...Não é a beleza da flor em si, diria Roland Barthes, mas o exato e decisivo momento em que esta irá fenecer e o doce momento em que a pétala irá cair. Mas essa breviedade se eterniza na sensação. A palavra nem sempre dá conta desse monumento que se ergue, da volição.

E querubins barrocos ainda carregam guirlandas a bater asas delicadas para que ainda se conserve o ritmo da respiração que ouvirias se em meu continente pudesses ser o mar...

Embraces...
C.
(Imagem de autoria de Cassiano Stahl. Todos os direitos reservados. Permitida reprodução, desde que citado o autor).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ai de mim, o que fazer se não me vem o sono? Se ainda me arde o corpo e se insinua de desejo meu coração?

- Maldito fragmento de carne...
Eu hoje abri as cartas de tarô.
Trespassaram-me três espadas.
Girou o mundo numa roda.
Cantou Afrodite em sete taças.
Dançou um louco pedindo graças.
Restou apenas o coração - pobre Dioníso Yaco...
E seu filho Pan, o encapetado...
2 taças
e um pouco de vinho.
3 moedas
e um bolso vazio.
mas no fim, fiquei com um Fauno
sem vergonha e de vara envergada
de cascos fendidos e face safada.
Ai de mim - quase morro!
Mas que sátiro malvado!
Mandou Zéfiro me trazer
só cerveja e pão cevado!

Yves Klein


Amar não pressupõe certezas. É um salto no vazio. Que não termina nunca de cair, e mesmo assim, nos assombra pelo medo de rachar a cara...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

SONETO DO DESMANTELO AZUL

"Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul. "
(Poema lindo enviado pela Cacá, minha grande amiga se Santa Catarina.
Cacá, te adoro, meu oceano de amor
bjs)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para Ida querida...



Se pendula um coração descompassado ao ritmo do amor, tua face serena após o gozo e o prazer acham o centro que existe em um mundo fabular. És, foi e sempre serás amada, querida Ida... Sempre é bom estar contigo...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Para meus amores...João, Márcio e Idalina


O amor, (parafraseando Lygia Fagundes Teles), possui sua disciplina. Saint-Exupèry diria dos "ritos". Há ritos para o amor, este enquanto uma acese para o prazer. Eis sua liturgia:

- Prepara os lençóis, que devem estar limpos e perfumados;

- Constrói teu ninho entre a cama e teu corpo;

- Lava tua carne, refresca tua pele, orna teus cabelos. Nada é mais doce do que o brilho ao olhar do amante;

- Deixa frutas, doces e o que de mais aprazível ao paladar se puder oferecer; todo o gozo e toda a dor começaram com uma simples mordida em uma maçã;

- Limpa tua boca, dentes e lábios; o beijo da morte as vezes pode ter melhor hálito;

- Recebe teu amante como quem recebe ao Zéfiro gozador a fazer dançar as cortinas da janela;

- Entrega-te ao beijo do teu desejante; singra e navega nas estrelas do céu de sua boca;

- Que teus lábios passeiem sobre cada planície, vale ou desfiladeiro das terras de teu amor, não esquecendo de envolver os mais altos picos com o calor de teu hálito;

- Ama com cada poro, célula e átomo de tua carne; um dia ela não mais estará aqui. O que levarás do outro na derradeira viagem?

- Goza da pequena e gloriosa morte; até o último minuto, o suspiro do anseio satisfeito há de ecoar por todos os vales numa nau de seda e algodão;


Ao fim, nada há de mais doce do que jogar-se aos braços do amante após o prazer. Deixar-se tombar em seu peito como a pétala da rosa que fenece. Um dia, de volta da terra ela brotará, tão rubra e viva como será eterno o desejo do gozo. Tudo volta. Mesmo aquilo que se pensou não ter vivido.

Espraio-me agora nos braços de meu núbio. Ouço seu coração bater em ritmo certo, sua cabeça levemente tombada para o lado, como o galho da cerejeira tomba ao peso de suas flores; em lençóis de algodão ele se cobre, e escuto atento o ronronar de sua respiração compassada. Gozo novamente com a música de seus olhos fechados. Se atento me colocar, posso sentir um calor vigoroso emanar de sua pele, me aquecendo o espírito com uma fulgurância terna.


O amor nos destrói, mas sempre faz nascer as mais belas poesias.

Deste jardim florido onde me ponho em sonhos...

C.

(Para meu amante, João, que me propicia os mais plenos dias e as mais doces noites. Para Márcio, escrileitor , amigo e sensualista. E para a querida Idalina, erógena flor em terreno selvagem numa vida desperta).

sábado, 17 de outubro de 2009

O tempo e o amor...

Por pouco tempo pode durar a minha vida. Que importa então? Não posso viver com medo. Não o quero. Ainda me restam forças para contemplar derradeiros desejos. Não quero saber quando nem como; meu corpo me dirá quando de minha partida. Até lá, quero a vida, quero viver. E que todo o mais - medo, dor, tristeza e desespero - partam para longe; não tenho tempo a perder e cada segundo conta. Quero amar e ser amado como se fosse o último dia da minha existência. Quero a luz e a alegria de e para todos os que me cercam. Amo meus amigos, família, professores. Amo cada indigente na rua, cada partícula de poeira, cada pássaro no céu, cada entardecer. O que sei, é que amo, e por isso sou amado pelo mundo. Se você está lendo isso, saiba que te amo.
Viva a Vida!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009



Princípio do prazer imediato. Ansiedade pela realização e preenchimento de um vazio, por outros - pelo Grande Outro. Figuras, imagens, ilusões. Eterna incompletude. Sonhar com o idílico e acordar com os monstros. Ir, voltar, pendular. Breviedade, tirania do tempo, devoração da carne extensa. Infiltrações intensas. Sabotagem. Negação. Barganha. Aceitação.
E ainda afirmam que viver pode ser belo...
Aguardar um fim que pode vir ou não. Pior: aguardar uma vida que não começa nunca.